
RESENDE, C.L.C. Abordagem homeopática no tratamento e profilaxia de surtos de cinomose em populações caninas. 2008. Trabalho de Conclusão de Curso - Fundação Homeopática Benoit Mure, Florianópolis, 2008.
A cinomose está entre as principais causas de morte por doenças infecto contagiosas que afetam cães em todo o mundo. Sua característica endêmica propicia verdadeiras calamidades quando introduzida em populações não imunizadas ou imunológicamente deprimidas. Em aglomerados animais como centros de acolhimento de animais de rua, Centros de Controle de Zoonoses (CCZs), feiras e criatórios esta situação é ainda mais devastadora. A profilaxia vacinal para o controle de surtos, devido aos altos custos, é na grande maioria das vezes inviável. Os tratamentos, além dos altos custos, são ineficientes em grande parcela dos casos, devido à agressividade de algumas cepas virais, principalmente em se tratando de populações com mínimas condições higiênico-sanitárias e máximas condições de stress físico e mental. Portanto há a necessidade de buscar-se alternativas de controle profilático e novas formas de tratamento, menos onerosas e mais efetivas que controlem ou minimizem os surtos endêmicos em grandes populações animais. Este trabalho teve como objetivo investigar novas formas de profilaxia e tratamento da cinomose explorando o potencial homeopático de controle de epidemias.
SUMÁRIO
•1 INTRODUÇÃO....................................................................01
•2 CINOMOSE.........................................................................02
•3 ABORDAGEM POPULACIONAL.......................................05
•4 VISÃO HOMEOPÁTICA DAS ENFERMIDADES
AGUDAS, EPIDÊMICAS, COLETIVAS...................................07
•5 HOMEOPROFILAXIA.........................................................09
•6 BIOTERÁPICOS.................................................................12
•7 GÊNIO EPIDÊMICO............................................................17
•8 DOSES E POTÊNCIAS.......................................................20
•9 PROFILAXIA VACINAL E VACINOSE...............................23
•10 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................27
ANEXO.....................................................................................30
APÊNDICE...............................................................................32
REFERÊNCIAS........................................................................34
1 INTRODUÇÃO
Os primeiros relatos de infecções pelo vírus da cinomose foram feitos por Jenner em 1809, fixando-se desde então como uma das mais graves doenças contagiosas de cães (SILVA, 2007). De alta morbidade e mortalidade, de apresentação endêmica, este vírus está difundido na população canina em todo o mundo como demonstrado no capítulo CINOMOSE. No capítulo, ABORDAGEM POPULACIONAL, as populações de cães que vagam pelas ruas, supostamente não imunizadas contra o vírus, desprovidas de atenção em saúde e sofrendo os efeitos deletérios do abandono, maus tratos e intempéries, são apresentadas como grupos de alto risco de contágio da cinomose e ao serem introduzidos animais portadores, sintomáticos ou assintomáticos em centros de acolhimento onde encontram-se altas concentrações de indivíduos susceptíveis, juntamente com os longos períodos de excreção do vírus no ambiente e a longa persistência do agente em ambientes com condições sanitárias impróprias, estabelece-se a perpetuação do vírus no ambiente de forma endêmica e persistente. No capítulo VISÃO HOMEOPÁTICA DAS ENFERMIDADES AGUDAS, EPIDÊMICAS, COLETIVAS mostramos a descrição de Hahnemann das doenças contagiosas ou miasmas agudos e fazemos uma analogia com as populações caninas e doenças agudas como a Cinomose. No capítulo HOMEOPROFILAXIA, o foco é sobre o histórico da utilização da homeopatia como profilaxia e seus prováveis mecanismos de ação. Nos capítulos BIOTERÁPICOS e GÊNIO EPIDÊMICO, respectivamente, abordamos estas duas formas de homeoprofilaxia citando suas utilizações por grandes homeopatas da história e da atualidade. As DOSES E POTÊNCIAS mais utilizadas por estes homeopatas, são abordadas no capítulo seguinte. Os temas vacinas e vacinoses são abordados no capítulo PROFILAXIA VACINAL E VACINOSE, considerando a utilização indiscriminada e não individualizada das vacinas como possível causa de novas doenças crônicas iatrogênicas. No capítulo CONSIDERAÇÕES FINAIS, propomos um protocolo de atuação nos centros de acolhimento de cães errantes, tanto em profilaxia como no tratamento de surtos endêmicos de cinomose, buscando na homeopatia, uma alternativa eficiente e barata para o controle da cinomose em tais populações.
2 CINOMOSE
A cinomose é uma doença viral, causada por um vírus da família Paramyxoviridae, com um único sorotipo, mas com diferentes cepas, de patogenicidades distintas, de distribuição mundial, de forma enzoótica. O vírus da cinomose após infectar um organismo, pode manifestar sintomas e sinais em vários sistemas orgânicos, desde lesões cutâneas, respiratórias e gastrointestinais, até quadros neurológicos graves, de forma isolada e seqüencial ou associados e de forma simultânea, na dependência da cepa viral envolvida. A transmissão do vírus é feita através de todas as secreções orgânicas, sendo a transmissão por aerosóis, de secreções respiratórias, a principal via de transmissão (APPLE e SUMMERS, 1999).
Dentre todas as doenças infecto-contagiosas dos cães, talvez a cinomose seja a mais avassaladora de todas, excluindo-se a raiva, quando levada em conta sua alta letalidade, mortalidade e seqüelas nos animais sobreviventes.
Os tratamentos alopáticos preconizados vão desde terapia de suporte com soroterapia e alimentação parenteral, até antibióticoterapia utilizada no combate às infecções secundárias oportunistas, os complexos vitamínicos, imunoestimulantes, interferon, vitaminas, gangliosídeos, imunoglobulinas e inclusive imunizações endovenosas. Já a imunização enquanto profilaxia é feita com vacinas de vírus vivo atenuado, apresentando bons resultados quando os programas vacinais utilizam vacinas de boa qualidade, com cepas vacinais atuais (CANAL e CANAL, 2004).
Em estudo realizado em um coletivo canino de proteção animal na província de Lugo, Espanha, observou-se que 4% dos cães, de uma amostra de 77 animais ao acaso, numa população total de 250, apresentavam sintomatologia clínica de cinomose (moquillo canino) e após avaliações laboratoriais, observou-se uma prevalência de 23% do vírus da cinomose (SANJUÁN et all, 2003). Outro estudo com cães recolhidos das ruas a canis nos municípios de Novo Hamburgo e Porto Alegre, Brasil, observou-se em 173 amostras de soros testados pela técnica de soroneutralização para anticorpos de CDV (canine distemper vírus), 0,93% dos animais apresentavam anticorpos para a doença (HARTMANN et all, 2007). Outro estudo com soroprevalência de anticorpos para CDV em Santa Maria, Brasil, encontrou em 817 animais não vacinados pesquisados, 27,3% de animais soropositivos (DEZENGRINI et all, 2007). Uma revisão do número de cães submetidos à necropsia no Departamento de Patologia Veterinária da Universidade Federal de Santa Maria, RS, Brasil, entre 1985-1997 mostrou que 11,7% (250/2136) apresentavam lesões e inclusões características de infecções pelo vírus da cinomose (HEADLEY et all, 2007). Outro trabalho no mesmo departamento da mesma universidade avaliou 5361 protocolos de necrópsias entre 1965 e 2006, a procura de casos de cinomose. Seiscentos e oitenta e três casos (12,7%) da doença foram encontrados, dos quais 620 apresentavam sinais neurológicos (SILVA et all, 2007). Em artigo que avalia condições de saúde de população de cães errantes, em Manaus, Brasil, apenas com exames clínicos, 1,6% dos animais apresentavam sintomas clínicos patognomônicos de cinomose, com sintomas respiratórios (coriza muco-purulenta e tosse) associados a uma conjuntivite, sintomas digestivos como vômito e diarréia e nervosos como mioclonia, paraplegia e paralisia (NETO, 2007). Em Cuba, outro estudo avaliou letalidade, prevalência, mortalidade e outros fatores, referentes ao moquillo canino (cinomose) de 1996 a 2003. Neste estudo, na cidade de Camaguey, encontrou-se uma prevalência de 1,85%, mortalidade de 0,73% e letalidade de 39,84% para esta enfermidade (AGUILAR, 2007). Em estudo efetuado na cidade de São Paulo, Brasil, analisou-se uma população de 1110 cães atendidos no Hospital Veterinário da Universidade Paulista (UNIP) e concluiu-se que as doenças infecciosas constituem a principal causa de óbito dos animais (29,9%) e dentre elas, a cinomose teve maior incidência (42,9%) como causa de mortalidade (BENTUBO, 2007). Esses resultados demonstram que esse vírus está difundido na população canina em várias localidades do país e do mundo. Se considerarmos que os títulos de anticorpos encontrados podem ser títulos vacinais ou de contágio, a real incidência do vírus nestas populações avaliadas, só pode ser considerada real nos trabalhos em que foram utilizados apenas animais não vacinados (DEZENGRINI et all, 2007) e também supor que animais que vagam nas ruas, possivelmente não estão vacinados (SANJUÁN et all, 2003; HARTMANN et all, 2007). Por outro lado, demonstram também que uma parte considerável da população é soronegativa e, portanto, está desprotegida frente a esses agentes, indicando a necessidade de se ampliar programas profiláticos (DEZENGRINI et all, 2007).
3 ABORDAGEM POPULACIONAL
As doenças infecto-contagiosas são mais comumente encontradas em aglomerados animais, sejam eles canis comerciais, feiras de animais, canis públicos ou locais de acolhimento de animais abandonados. Particularmente nos centros de acolhimento de animais de rua, que recolhem animais de procedência desconhecida, muitas vezes em condições graves de saúde física e mental, desnutridos, parasitados e que passaram por maus tratos e intempéries das mais diversas, ao serem introduzidos em locais com alta densidade animal, sem quarentena adequada, e na maioria das vezes com condições higiênico-sanitárias inapropriadas, os riscos de contágio são absolutamente maiores.
Na maioria das vezes, veterinários voluntários ou contratados encontram situações dramáticas nestes locais com situações sanitárias extremamente precárias e falta de recursos financeiros para gerenciamento adequado, onde tudo falta, desde o alimento básico, remédios, vacinas, instalações adequadas e voluntários para as diversas tarefas cotidianas.
Os altos custos dos tratamentos e imunizações tornam-se absolutamente inviáveis na grande maioria dos locais de acolhimento com grandes aglomerados animais. A disseminação de doenças infecto-contagiosas como a cinomose, de alta prevalência, letalidade e mortalidade, quando introduzidas nestes locais, chegam a causar mais de 50% de óbitos entre os animais susceptíveis, ou seja, não imunizados por vacinas ou contato prévio com o patógeno (DIAZ et all, 2007).
Os abrigos para cães transformam-se em lar definitivo quando deveriam ser apenas um local de passagem para os animais. Não são poucos os casos de pessoas que começam a abrigar animais em suas casas e quando dão por si, não possuem estrutura para mantê-los. O resultado disso é o de animais alimentados com produtos de baixa qualidade, doentes e pessoas desesperadas atrás de ajuda. Os responsáveis por estes abrigos, chamados protetores animais, assim como as Organizações Não Governamentais (Ongs) de proteção e direitos animais, acabam assumindo o papel que é de responsabilidade do poder público como esterilização de animais de rua para controle de natalidade, promoção e divulgação de programas de adoção monitorada assim como ações educativas de posse responsável.
4 VISÃO HOMEOPÁTICA DAS ENFERMIDADES AGUDAS, EPIDÊMICAS, COLETIVAS.
Segundo Hahnemann[1], a predisposição à susceptibilidade, deve existir antes que a doença infecciosa possa se estabelecer, creditando à existência de um estado de doença crônica anterior, a causa fundamental dos miasmas agudos. Alega que, se a força vital não se apresenta distorcida pela presença de doença crônica, então o estado de susceptibilidade não existe e as doenças contagiosas não encontram uma porta de entrada. Isto explicaria o fato de que em surtos epidêmicos alguns indivíduos não adoecem, comprovando assim a ausência de susceptibilidade àquele agente, naquele momento (HAHNEMANN, 2001).
Ainda segundo Hahnemann, no parágrafo 73 do Organon (2001), na classificação de doenças agudas coletivas epidêmicas:
[...] aquelas que atacam epidemicamente muitas pessoas por semelhantes causas e com padecimentos muito semelhantes, habitualmente se tornando contagiosas quando envolvem massas humanas compactas. Assim, surgem febres de natureza peculiar em cada caso e, devido à identidade da sua origem, colocam sempre os doentes em um processo mórbido idêntico que, abandonado a si mesmo, num espaço de tempo relativamente curto, opta pela morte ou pelo restabelecimento. As calamidades da guerra, as inundações e a fome, não raro as provocam e são sua origem. Por outro lado, os miasmas agudos peculiares que retornam sempre da mesma forma (daí serem conhecidos por algum nome tradicional) são aqueles que, ou atacam os homens apenas uma vez na vida, como varíola, o sarampo, a coqueluche, a antiga febre escarlate lisa de Sydemham, a caxumba etc, ou podem voltar freqüentemente de maneira bastante semelhante, como a peste do Levante, a febre amarela do litoral, a cólera asiática etc (HAHNEMANN, 2001- pg 124-125).
Aqui é possível, por analogia, compararem-se estas calamidades humanas ao abandono, fome e maus tratos sofridos pelas populações de animais abandonados nas ruas. Junto a estes exemplos em medicina humana, podemos incluir, em veterinária, doenças infecto contagiosas agudas de alta morbidade e mortalidade, como Parvovirose e Cinomose em cães e Panleucopenia em felinos.
David Little chama de miasma fixo a estas doenças infecciosas agudas que tem uma forma definida, ou seja, que não mudam de ano para ano e que quando aparecem podem ser reconhecidas como em surtos anteriores, décadas atrás. Segundo este autor, é sobre estes miasmas fixos que os nosódios agem mais efetivamente e no caso de cepas mutantes ou novas infecções com sinais e sintomas novos agregados, o melhor método seria o gênio epidêmico (LITTLE, 2007a).
5 HOMEOPROFILAXIA (HP)
Homeoprofilaxia entende-se como o uso sistemático de substâncias dinamizadas, preparadas segundo as normas da farmacopéia homeopática, com a finalidade de prevenir o desenvolvimento de sintomas característicos de doenças infecciosas específicas (GOLDEN, 2004).
Segundo Eizayaga (1992) e Golden (2004) são três os métodos de prevenção de doenças infecciosas em homeoprofilaxia:
- (1) Remédio Constitucional: é escolhido baseando-se na totalidade sintomática individual, segundo a Lei da Semelhança, utilizando para isso, sintomatologias mentais, emocionais e físicas. A ação do medicamento constitucional sobre a Energia Vital do indivíduo removendo predisposições, incrementando a vitalidade e a imunidade geral, acaba por oferecer algum nível de prevenção sobre todas as doenças. Conforme experiências clínicas comprovam, nem sempre é suficiente para garantir altos níveis de imunidade contra doenças infecciosas específicas.
- (2) Gênio Epidêmico: a escolha deste medicamento é feita a partir da análise de sintomas padrão, de um número representativo de indivíduos portadores de tal doença infecciosa, levando ao medicamento que melhor se ajusta à maioria dos casos (imagem coletiva) do surto em curso. Especialmente útil em oferecer proteção contra doenças epidêmicas agudas.
- (3) Bioterápicos: utilização do produto da própria doença (secreção, excreção, cultura do patógeno, sangue e etc.) utilizando a causa ou agente patógeno como prevenção contra a mesma doença. A imagem sintomatológica do medicamento deve ser similar à imagem sintomatológica da doença, ou ainda, o agente causal da doença deve ser capaz de provocar, no organismo susceptível, sintomas similares ao da doença.
Segundo Little, "A chave para uma boa profilaxia homeopática é saber quando usar anamnese individual e quando a anamnese grupal pode ser mais apropriada" (LITTLE, 2007b). No mesmo texto, cita que Hahnemann deixa bem claro que a profilaxia específica somente deve ser usada quando há um risco claro e real de infecção, e mesmo assim, como complementação ao tratamento constitucional, quando for possível individualizar o tratamento (apud LITTLE, 2007b).
Segundo Golden, os mecanismos de ação da Homeoprofilaxia, apresentam-se em dois modelos básicos, descritos por ele a seguir:
- (1) Modelo de Idiossincrasia que propõe que o mecanismo de ação da HP pode ser explicado em termos da habilidade na mudança do nível de idiossincrasia ou sensibilidade do indivíduo receptor com relação a estímulos energéticos de várias doenças infecciosas e seus agentes causais. Complementa dizendo que em homeopatia, a ação da Energia do agente causal sobre a Energia do indivíduo doente, seria a primeira linha de defesa orgânica e que se o indivíduo não é susceptível ao estímulo dinâmico do agente infeccioso ou quando a fração antígeno específica desta Energia Vital é mais forte que a força dinâmica do estímulo antigênico, então o sintoma físico que chamamos de doença, não aparecerá.
- (2) "Proving Model" defende que a medicação homeopática profilática seja ela bioterápico ou gênio epidêmico, cria um estado de doença artificial no qual os sintomas característicos são muito similares aos sintomas característicos da doença natural, repelindo-a ou deslocando-a. Como observou e demonstrou Hahnemann, duas doenças similares não podem existir no sistema ao mesmo tempo (HAHNEMANN, 2001). Ao se criar um "estado de prova" com o homeoprofilático, a doença natural será repelida ou deslocada quando o indivíduo for exposto a ela. Segundo este modelo, a imunidade somente estaria ativa enquanto o medicamento estivesse sendo administrado, o que caracteriza uma imunidade de curto prazo. Desta forma, este modelo de ação estaria incompleto no que diz respeito a como explicar os efeitos protetores de longo prazo, comprovados na prática clínica de homeopatas de todo o mundo (GOLDEN, 2007).
O tema profilaxia em homeopatia sempre foi polêmico, mesmo entre os homeopatas. Há dúvidas quanto ao papel dos microorganismos enquanto agentes causais das enfermidades. Alguns acreditam que eles nada mais são do que aproveitadores do momento de doença do indivíduo, atuando em momentos de desequilíbrio da energia vital e que sendo utilizado, nestas circunstâncias, um medicamento adequado (compatível com a totalidade sintomatológica do doente - medicamento de fundo ou constitucional), eles seriam eliminados pelo próprio organismo em função do re-equilíbrio da energia vital. Outros acreditam que as toxinas bacterianas e a própria bactéria, acrescentam sintomas à doença psicossomática de fundo e que o nosódio mobiliza a enfermidade latente ou suprimida, expondo-a a observação do médico, quando bem indicado. Neste caso, os bioterápicos teriam a função de curar a infecção separadamente da totalidade do organismo, "limpando" os sintomas agregados pelas bactérias, restando uma sintomatologia pura para a pesquisa do medicamento de fundo (BENEZ, 2002).
A razão de os medicamentos homeopáticos não terem sido aceitos pela comunidade médica ortodoxa como profiláticos, é o fato de não terem demonstrado ou comprovado que possa haver aumento dos níveis de anticorpos específicos mensuráveis, o que para o conhecimento científico atual, os desabona como medicação profilática. Também a não comprovação dos mecanismos de ação correspondentes aos homeoprofiláticos, torna desacreditada esta metodologia aos olhos da ciência médica ortodoxa. A grande dificuldade com pesquisa em homeopatia é que os métodos utilizados para testar ações moleculares não são necessariamente apropriados para testar reações não moleculares. Faz-se necessário adaptar as experiências positivas de ensaios clínicos homeopáticos da literatura científica internacional às exigências dos ensaios clínicos convencionais e a racionalidade científica moderna, na busca de um modelo que possa avaliar a eficácia e a real efetividade do tratamento homeopático, utilizando ensaios duplos-cegos randomizados e placebos controlados (TEIXEIRA, 2001).
6 BIOTERÁPICOS
Os termos nosódios e isoterápicos foram substituídos pelo Codex francês, por Bioterápicos. Enquanto nosódio se define por medicamento preparado com produtos patológicos, vegetais ou animais, bioterápicos definem-se como preparações medicamentosas de uso homeopático, obtidas a partir de produtos biológicos quimicamente indefinidos: secreções, excreções, tecidos e órgãos, patológicos ou não, certos produtos de origem microbiana e alergenos (L'ADRAPHARM, 1989). Já o termo isoterapia, consiste no emprego de bioterápicos oriundos de produtos patológicos produzidos pela própria doença ou de cultura dos respectivos microorganismos causais. Este termo é mais utilizado atualmente ao referir-se a desensibilização por tóxicos e alergenos (ROMANACH, 2003). O fato de encontrar, na literatura especializada, os três termos ainda em uso, permite-nos a utilização, neste trabalho de qualquer destes, conforme a citação de cada autor.
Uma questão é se os bioterápicos seriam medicamentos homeopáticos já que a maioria deles não apresenta patogenesias² (excetuando-se Luesinum, Medorrhinum, Psorinum, Tuberculinum, Carcinosinum, etc). Hahnemann era declaradamente hostil aos adeptos dos bioterápicos e fez referência ao método na edição do Organon de 1833 e na edição póstuma (6ª. Edição), onde afirma que a pretensão de curar, através da potência patogênica rigorosamente igual (aequalia aequalibus curantur), é contrária ao bom senso e, também, a toda experiência, já que os critérios de prescrição, neste caso, não são homeopáticos, pois tais medicamentos não apresentam patogenesias[2] próprias por não haverem sido experimentados no homem são e que, portanto não obedeceriam à lei da semelhança[3].
A utilização de bioterápicos como tratamento e profilaxia de doenças infecto-contagiosas, remonta à época da publicação das Doenças Crônicas de Hahnemann, no final do século XIX, quando introduz o conceito de miasma e correlaciona-o às doenças crônicas. Inspirado por esta publicação, Hering iniciou experimentos com o uso de agentes miasmáticos como remédios (nosódios). Utilizou vesículas de sarna (Psorinum), descarga gonorrêica (Medorrhinum), esputo tuberculoso (Tuberculinum) e tecido sifilítico (Syphilinum) como remédios dinamizados e inclusive estudou suas patogenesias, expandindo a Matéria Médica Homeopática da época. Além disso, foi precursor dos auto-nosódios, utilizando produtos miasmáticos do próprio doente no tratamento das doenças crônicas e também utilizou nosódios de forma profilática. Em 1830, Hering propôs o uso de Hydrophobinum para a prevenção da raiva; Variolinum para a prevenção da varíola (small pox) e Psorinum para prevenir o miasma da sarna (LITTLE, 2007a e 2007b).
Outro seguidor de Hahnemann, Boenninghausen, também utilizou nosódios de forma profilática (Variolinum) e classificou-o como superior à vacinação ortodoxa em termos de resultados e segurança (LITTLE, 2007b).
Em 1831, Johann Joseph Wilhelm Lux, um conhecido veterinário homeopata da época, conduziu experimentos com o uso de nosódios em endemias de carbúnculo e mormo, utilizando sangue e muco nasal respectivamente, como tratamento e como profilaxia em todo o rebanho, alcançando sucesso total. Em 1833 publica seu novo método, motivando assim o surgimento da vacinação coletiva mediante o uso de isoterápicos. Também coube a ele o pioneirismo da utilização das ultradiluições no propósito terapêutico válido nas intoxicações e em situações iatrogenizantes (ROMANACH, 2003).
Outros grandes homeopatas do passado como Stapf e Collet, foram defensores da utilização de nosódios. Stapf defendeu a norma de administrar ao doente a substância retirada dele próprio, tornando-se o promotor da auto-nosodioterapia ou auto-isoterapia, assim como propôs o emprego de isoterápicos como vacinas. Collet concebia que os produtos de eliminação (lágrimas, mucosidade retro-faríngea, secreções diftéricas, mucosidades brônquicas, saliva, urina, suor e serosidades cutâneas), quando diluídos e dinamizados, prestavam-se a remédios específicos já que contêm o germe, a imagem da doença e a totalidade do indivíduo (ROMANACH, 2003).
Mais recentemente, o médico homeopata brasileiro Licínio Cardoso (1852-1926) assim como Collet, Lux e Hering, afirmava que os agentes causais e suas toxinas, presentes no sangue seriam capazes de produzir ou a própria doença, ou uma outra semelhante a ela. Denomina sua técnica de hemodínea ou auto-hemoterapia detalhando-a no livro de sua autoria "Dynotherapia Autonósica" (ROMANACH, 2003).
Eizayaga, em seu Tratado de Medicina Homeopática, admite que:
Com o nosódio de cada uma das enfermidades agudas, podemos cumprir em homeopatia, um trabalho semelhante ao feito com vacinas conhecidas, sem nenhum dos seus inconvenientes. Enquanto com o remédio homeopático aumentamos a resistência inespecífica de um sujeito a uma infecção, com o nosódio, ao que parece, alcançamos uma elevação da imunidade específica para determinado germe (EIZAYAGA, 1992, p. 369).
Em seguida cita experiências clínicas nas quais baseia esta afirmação.
Também como defensora e propagadora do uso de nosódios, temos a contemporânea Dorothy Shepherd, médica homeopata, que em seu livro intitulado Homeopathy in Epidemic Diseases, afirma que a utilização de meios profiláticos ortodoxos (vacinas) acarretaria, freqüentemente, severas reações e efeitos indesejáveis e segundo sua prática clínica, a utilização de nosódios como profilaxia é extremamente segura e absolutamente efetiva em seus efeitos sendo que, caso a doença ainda assim se instale, seus efeitos serão muito suavizados. Afirma ainda, que os efeitos benéficos do uso de nosódios em doenças agudas epidêmicas, estendem-se tanto à profilaxia quanto ao tratamento curativo depois que a doença já se instalou. Acrescenta ainda que existe uma grande diferença de eficácia entre um nosódio confeccionado com secreções, descargas ou lesões das patologias e os confeccionados com vacinas e culturas microbianas, sendo esta última forma geralmente ineficaz (apud PITCAIRN, 2007b).
Outro contemporâneo, Richard Pitcairn, médico veterinário homeopata, do Animal Natural Health Center, possui vasta experiência com homoeoprofilaxia e afirma que a proteção com nosódios é tão confiável quanto as vacinações ortodoxas, mas com a vantagem de apresentar menos efeitos indesejáveis. Ainda segundo Pitcairn, veterinários como Dom Hamilton e o Charles Loops, também utilizam como rotina clínica, os nosódios na prevenção de doenças infecto-contagiosas, com resultados extremamente satisfatórios, mas diferentemente deste autor, utilizam um único nosódio por vez enquanto ele (Pitcairn) utiliza vários nosódios simultaneamente. Pitcairn ainda descreve experiências suas e de outros veterinários, com homeoprofilaxia em animais: o Doutor Christopher Day publicou alguns excelentes trabalhos em homeoprofilaxia, sendo o mais expressivo intitulado Isopathic Prevention of Kennel Cough Is Vaccination Justified?, no qual demonstra, com amostragem expressiva de 200 cães, uma significante queda na incidência de Tosse dos Canis, de 100% para menos de 5% com a utilização de nosódios. Outro trabalho seu, de prevenção com nosódios, em mastite bovina, apresentou uma redução de 48% para 3% na incidência da doença. Cita o trabalho do Doutor Horace B.F. Jervis publicado em 1929, Treatment of Canine Distemper with the Potentizes Vírus, no qual descreve o grande sucesso do uso do nosódio Distemperinum na prevenção da Cinomose (distemper). Recomenda especialmente a utilização de 200CH e utiliza o nosódio, além de profilaticamente, também como tratamento, freqüentemente no estágio de incubação da doença, impedindo o surgimento da mesma. Também relata sucesso em quadros clínicos já instalados, com sintomas como diarréia pútrida e convulsões, revertendo inclusive casos em estágios clínicos bem avançados. Observa ainda que, alguns quadros de cinomose necessitam outros medicamentos além do nosódio (PITCAIRN, 2007a).
7 GÊNIO EPIDÊMICO
Gênio epidêmico é o estudo dos sintomas gerais de um surto infeccioso, em uma determinada população. Quando utilizamos a somatória destes sintomas como imagem grupal, encontramos o medicamento homeopático (gênio medicamentoso) que tratará todos os indivíduos que sofrem daquela epidemia. A anamnese é grupal e baseia-se numa abordagem coletiva das particularidades da doença epidêmica, sendo particularmente útil quando há um claro perigo de doença infecciosa em um grupo determinado (LITTLE, 2007b). A seleção do medicamento profilático deve ser baseada na natureza da epidemia e por esta razão o melhor preventivo nem sempre pode ser determinado até que a epidemia tenha aparecido, e sua natureza peculiar tenha sido apurada (DUNHAM apud LITTLE,2007b).
Segundo Hahnemann, no parágrafo 101 do Organon, a investigação criteriosa do conjunto característico de sintomas e sinais de vários casos da mesma epidemia, leva ao medicamento adequado e homeopaticamente conveniente (HAHNEMANN, 2001 - pg 142).
O mesmo remédio que irá prevenir a doença epidêmica também pode ser usado para curá-la em estágios iniciais antes que sintomas mais sérios apareçam. Em estágios mais avançados pode haver a necessidade de novo gênio epidêmico, agregando-se novos sintomas e sinais (LITTLE, 2007b).
No parágrafo 102 do Organon, Hahnemann enfatiza a importância da utilização de sinais e sintomas comuns a vários indivíduos de diferentes constituições físicas, e não a uns poucos ou apenas um:
[...], mas toda a extensão de tal epidemia e a totalidade de seus sintomas [...] não pode ser percebida num único doente isoladamente, mas ao contrário, somente será perfeitamente deduzida e descoberta (abstraída) através do sofrimento de vários doentes de diferentes constituições físicas (HAHNEMANN, 2001 - pg 142-143).
Os primeiros casos observados em um surto não indicam necessariamente a imagem completa do gênio epidêmico e faz-se necessário observar vários pacientes para se ter com clareza o gênio medicamentoso mais adequado e que possa curar a grande maioria dos casos (MEDIRAL, 2008).
Kent, o pai da homeopatia constitucional, ao dispor sobre idiossincrasias nos diz:
Vocês descobrirão que a profilaxia requer um grau menor de similitude do que a necessária para curar. Para prevenir a doença, um remédio não tem que ser tão semelhante como para curá-la e estes remédios de uso diário nos permitirão evitar que um grande número de pessoas adoeça. Devemos recorrer à Homeopatia tanto para a prevenção como para a cura (KENT, 2002 - pg 242).
Ao se ter em mãos o medicamento do gênio epidêmico de uma determinada epidemia, este poderá ser prescrito para todos os indivíduos que se encontram na área de risco e que ainda não apresentem sintomas, observando assim uma redução no número de doentes, redução da gravidade dos sintomas e das mortes (BENEZ, 2002).
Hahnemann utilizou Belladona e Aconitum em diferentes surtos epidêmicos de Escarlatina, no início do século XIX, como tratamento e profilaxia, utilizando a individualização de cada surto e suas características peculiares (TAYLOR, 2008). Também utilizou Bryonia e Rhus Toxicodendrum em surtos de Tifo onde tratou 180 casos e com apenas dois casos de mortes (LITTLE, 2007b). Também recomendou o uso de Camphora e Cuprum Metalicum na publicação de Cause and Prevention of the Asiatic Cholera, no combate à cólera (MEDIRAL, 2008). Desta forma evidenciou que surtos da mesma epidemia, em diferentes localizações e momentos, manifestam-se de formas particulares, são diferentes entre si e, portanto requerem medicamentos específicos à natureza individual de cada surto. Durante a pandemia de influenza de 1918, que se calcula que tenha matado 30 milhões de pessoas em todo o mundo, o The Journal of the American Institute of Homeopathy (maio de 1921) reportou que em 24.000 casos da doença as mortes eram de 28,2% para os enfermos tratados com alopatia e 1,05% para os tratados com homeopatia. Boenninghausen usou, com sucesso, Thuya como gênio epidêmico na prevenção e tratamento da varíola. ( LITTLE, 2007b).
Em veterinária, a utilização do gênio epidêmico é comum em rebanhos e criatórios, onde a abordagem é feita como se todos os indivíduos que compõe o grupo representassem um organismo único. As considerações, do que é particular e peculiar ao grupo enquanto unidade enferma são utilizadas na busca do medicamento do gênio epidêmico.
8 DOSES E POTÊNCIAS
Uma crítica aplicada a HP é que o nível e a duração da proteção não são conhecidos completamente. Hahnemann no parágrafo 281 do Organon, quando fala da sensibilidade individual de cada indivíduo à dose e à potência do medicamento, deixa claro que esta deve ser individualizada de acordo com as predisposições do paciente e as circunstâncias do momento (HAHNEMANN, 2001).
O princípio homeopático de mínima dose e mínima intervenção deve ser observado devendo-se considerar a constituição individual e a predisposição miasmática para que não se crie no paciente um "miasma medicamentoso" similar à doença que se quer evitar (MEDIRAL, 2008).
Segundo Little, quando as individualizações não são possíveis, como em surtos epidêmicos de grandes populações, o paciente deve tomar pequenas doses de potências moderadas e afirma preferir o uso de potências centesimais(C) e cinquentamilesimais(L) na forma líquida e em doses divididas, se e quando necessário. Este método propicia o ajuste da medicação à sensibilidade da constituição do indivíduo, o que não é possível quando se utilizam glóbulos, papelotes e pellets (LITTLE, 2007b).
Este mesmo autor segue descrevendo as posologias utilizadas por grandes nomes da homeopatia: Hahnemann no artigo intitulado Cure and Prevention of Asiatic Cholera, declara que uma simples dose de 30CH uma vez a cada 7 dias, enquanto houver ameaça de infecção, é suficiente para prevenir a doença alvo. Ainda no mesmo artigo, Hahnemman preconiza a dispensação do medicamento já na forma plus (diluída em água para ser tomada em doses fracionadas) já que desta forma, ao ser sucussionada (agitada) cada vez, antes da ingestão, propiciaria a ingestão de doses potencialmente diferentes em cada toma, fazendo com que a ação medicamentosa atue profunda e suavemente na força vital e propicie menos riscos de agravação por repetição de doses. Eaton notou que Variolinum 30 CH era 97% efetivo na prevenção de smallpox em 1907. Burrnet também classifica Variolinum 30CH como muito efetivo. Prossegue Little no mesmo artigo afirmando que: a potência 30CH parece ser suficiente para ser utilizada em desordens epidêmicas que apresentem ameaça curta, de algumas semanas ou meses; que a 200CH tem duração maior que a 30CH e pode ser efetiva por no mínimo 2 a 4 semanas; que potências maiores como 1M podem prover proteção por longos períodos como algumas semanas ou meses; que estudos franceses (1932 e 1946) mostram que Diptherotoxinum 4M e 8M produzem antitoxinas no sangue por mais de 5 anos. Quanto às suscetibilidades individuais relata que, potências de longa ação podem ser excelentes para algumas pessoas, mas aqueles que são muito sensíveis podem ter agravações severas e podem não tolerar o medicamento repetido em pequenos intervalos e que os indivíduos hiposensíveis podem necessitar de doses mais freqüentes. Afirma ainda, que o aumento gradual da potência na escala LM é bem adaptado ao uso de medicamentos homeopáticos na forma preventiva, isto porque têm a profundidade das potências centesimais (200CH, 1M, etc), mas se preparada e administrada corretamente, não produz agravações prolongadas, porém a duração da sua ação é curta. Quando uma simples dose produz sintomas, o medicamento não deve ser repetido. Isto indica que o indivíduo é muito sensível (hipersensível) ao medicamento profilático e que o processo preventivo já começou. Em geral, indivíduos que não mostram sintomas mesmo após doses repetidas em intervalos relativamente curtos, demonstram não ser particularmente susceptíveis (hiposensíveis) ao remédio ou a doença alvos. O intervalo entre doses deve ser adaptado de acordo à sensibilidade da constituição individual e o grau de potência utilizada. Dependendo da natureza da doença e os riscos de exposição, podem-se utilizar reforços para estender o período de proteção, sempre cessando a administração ao primeiro sinal de sintomas. Se doses ajustadas por um razoável período de tempo, mesmo assim não forem capazes de produzir sintomas, provavelmente este indivíduo já esteja imune à doença alvo e a medicação deve ser interrompida. Existem poucos riscos em homeoprofilaxia se o processo for feito lenta e cuidadosamente, com potências moderadas e doses dadas dentro de limites razoáveis (LITTLE, 2007b).
9 PROFILAXIA VACINAL E VACINOSE
A vacinação consiste na utilização do agente causador da doença, seja de forma atenuada (vírus vivos), inativada (vírus morto) ou ainda por produtos derivados de toxinas bacterianas (bacterinas), introduzidos no organismo sob a forma parenteral (injetável) na maioria das vezes, ou por administração oral ou nasal. A finalidade do uso de tais produtos é de provocar no organismo que a recebe, uma imunização ativa artificial (PUSTIGLIONE, 1993).
O produto utilizado na vacinação encontra-se não dinamizado e ainda utiliza muitos agentes preservativos e adjuvantes (alumínio, thimerosol e formaldeído, entre outros), assim como antibióticos e proteínas estranhas anexadas ao produto após passagem por células embrionárias de galinha, patos, macacos e outros (MOTTA et all, 2003).
A segurança, a necessidade e a eficácia das vacinas comerciais e seus protocolos de utilização, vem sendo questionados há muitos anos por alopatas e homeopatas em todo o mundo, seja em medicina humana, seja em medicina veterinária.
Segundo Burnett, homeopata francês que criou o termo, vacinose seria uma doença crônica decorrente de vacinação (apud TEIXEIRA, 2003). Outra descrição mais completa seria a do Doutor Pitcairn, quando enfatiza a ação da energia vital na dinâmica da vacinose:
[...] distúrbio da força vital em decorrência de vacinação e que resulta em alterações mentais, emocionais e físicas que podem em alguns casos, estabelecer uma condição permanente [...] a vacinação também tem a habilidade de bloquear a resposta ao remédio constitucional, obstaculizando a cura de um medicamento adequadamente eleito, segundo a totalidade dos sintomas (PITCAIRN, 2007b, pg 03).
Em sua prática clínica, refere haver um significante número de casos que não reagem adequadamente ao medicamento no caminho da cura, devido ao estabelecimento de doença crônica (miasma crônico) decorrente de vacinação e alega ser o processo de modificação laboratorial à que o agente é submetido na fabricação da vacina, assim como a utilização de preservativos, adjuvantes e antibióticos, os grandes responsáveis pela conversão de uma doença aguda em crônica, neste caso chamada vacinose (PITCAIRN, 2007b).
Pitcairn ainda sugere que em decorrência de vacinações repetidas, doenças agudas como Cinomose mudaram sua forma de apresentação aguda para crônica (quadro 1).
O médico veterinário Don Hamilton, no artigo intitulado "Vaccinations in Veterinary Medicine: Dogs and Cats" também sugere, que vacinas protegem contra doenças agudas, não prevenindo a doença, mas mudando a forma da doença para uma doença crônica. Exemplifica tal fato citando a Doença Inflamatória Intestinal ou Inflammatory Bowel Disease (IBD) em gatos, como uma doença auto-imune intestinal responsável por um estado crônico de diarréia e por vezes vômitos, como resultado da vacinação contra Panleucopenia, cuja sintomatologia mais evidente seria uma má função do trato digestivo, de progressão rápida. Neste caso, além da má função intestinal, com diarréia e vômito, comum a Panleucopenia e ao IBD, faz correlação também entre os baixos níveis de leucócitos encontrados na Panleucopenia e a imunodeficiência encontrada na Leucemia Felina e na Imunodeficiência Felina. Similar conexão tem sido proposta entre Cinomose Canina, Tosse dos Canis e Parvovirose canina já que a Cinomose apresenta tanto sintomas respiratórios como a tosse crônica da Tosse dos Canis, como diarréia severa e vômitos, presente na Parvovirose. Outra conexão importante seria entre as parvoviroses canina e felina (panleucopenia), sugerindo um incremento na vacinação de parvovírus canino nas últimas duas décadas em contraste com a mais longa história de vacinação contra Panleucopenia. Finalmente, são propostas conexões entre a vacinação contra a Raiva e o aumento nas alterações comportamentais de pânico e agressividade em animais. Todas estas manifestações crônicas estariam associadas ao incremento dos programas vacinais em animais de companhia nas últimas duas décadas (HAMILTON, 2007).
Segundo Little, os sintomas da vacinose em humanos, podem incluir febre, convulsões e outras sérias queixas na forma de crises agudas imediatas ou na forma de miasma crônico, podendo produzir sintomas mais severos após meses ou anos da inoculação da vacina e que em muitos casos, a responsabilidade por tal quadro crônico, cairá sobre outras causas ou será considerada idiopática, pela medicina ortodoxa tradicional. Os efeitos crônicos da moderna imunização produzem três síndromes associadas com danos cerebrais, identificadas em humanos: Síndrome Pós Encefalite (PES), Encefalite Pós Vacinal (PVE), e Dano Cerebral Mínimo (MBD). Todas estas três síndromes vêm sendo associadas ao grande incremento de autismo, dislexia, hiperatividade, dificuldades de aprendizado e desordens neurológicas, a partir da introdução de programas obrigatórios de vacinação humana em todo o mundo. Outros sintomas relacionam-se a processos alérgicos como atopia, rinite e asma; artrites, neurites, dor, paralisia muscular; otites crônicas recidivantes, conjuntivites; esclerose múltipla, mielite, desmielinização, convulsões; desordens tiroideanas, hepatite crônica, falha renal, cistite, doenças do trato urinário, disfunção do sistema imune e doenças autoimunes, assim como muitas outras afecções relatadas por médicos alopatas e homeopatas no mundo todo. Alterações nos padrões naturais de sono, de alimentação e comportamentais seriam sintomas latentes da vacinose. Cada vacina apresenta sintomas agudos, latentes e crônicos dos quais somente os agudos a escola ortodoxa associa a efeitos vacinais (LITTLE, 2007b).
A conexão entre os eventos distantes (vacinação) e eventos recentes (novas doenças) não são vistas pela medicina alopática como eventos relacionados, mas segundo os vários autores já citados, cada vacina tem o potencial de produzir uma síndrome insidiosa de sintomas algo similar à doença da qual foi feita, produzindo enfermidades iatrogênicas das mais diversas.
Os protocolos vacinais, em medicina veterinária, são extremamente agressivos. Anualmente, cada cão toma em média de 9 a 13 vacinas por ano na forma de reforços vacinais. Os gatos recebem aproximadamente 5 vacinas ao ano. O sistema imune do animal é invadido por substâncias estranhas, por uma via diferente da infecção natural, com diversos estímulos antigênicos concomitantes sobrecarregando-o de forma ainda pouco elucidada.
10 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A procura de alternativas terapêuticas no controle dos surtos endêmicos de cinomose em populações caninas de média e alta densidade animal, tanto de forma profilática quanto curativa, cria novas perspectivas na utilização da homeopatia veterinária.
A intenção inicial deste trabalho era de explorar experimentalmente o potencial da utilização de bioterápicos e gênio epidêmico em brotes endêmicos de cinomose em um centro de acolhimento de animais de rua, em Florianópolis, com aproximadamente 100 animais. Devido à dificuldade de identificação dos animais, o controle na administração dos medicamentos e o uso freqüente de medicação alopática, como antibióticos, antifúngicos e corticóides utilizados em brotes contínuos de diversas enfermidades concomitantes, optou-se por observarem-se as dificuldades metodológicas na confecção de trabalho experimental e desta forma, junto à fundamentação teórica exposta, ter-se a possibilidade de posteriormente desenvolver novos projetos de pesquisa com a devida aproximação do modelo homeopático à racionalidade científica moderna para a própria segurança institucional da homeopatia.
Portanto, o objetivo do presente trabalho é o de gerar fundamentação teórica a pesquisas experimentais futuras, que abordem o tema profilaxia e tratamento em doenças epidêmicas, com a utilização de bioterápicos e gênio epidêmico em medicina veterinária homeopática.
Desta forma, expomos na seqüência, proposta de atuação em centros de acolhimento de cães de rua, no controle de surtos de cinomose:
(1) Levantamento de dados: número total de animais; número de animais até 1 ano de idade; número de animais susceptíveis (não vacinados); número de animais vacinados; número de animais sem alterações clínicas; número de animais portadores de patologias e discriminação das patologias; número de animais sob tratamento e qual o medicamento e posologia utilizada; condições higiênico sanitárias locais.
(2) Catalogar animais com nomes, descrição física e fotografias assim como coleiras de identificação e/ou tatuagem.
(3) Controle de entradas, nascimentos, doações, óbitos, internações e outros.
(4) Confeccionar bioterápico a partir de pool de secreções oculares, nasais e dérmicas, de casos já existentes no local.
A potência inicial 30 CH uma vez ao dia por 7 dias deve ser usada em todos os animais susceptíveis presentes no local. Antes de cada dose o medicamento deve sofrer 10 sucussões.
A cada nova entrada de animais, estes deverão iniciar as tomadas.
Nos animais assintomáticos, ao primeiro sinal de surgimento de sintomas, deve-se interromper a medicação e aguardar.
Após 30 dias da última dose da 30 CH, efetua-se dose única na potência 200 CH.
Após 90 dias da administração da dose única de 200 CH, dosifica-se, novamente em dose única, com a potência 1M.
A cada novo surto devem-se coletar novamente as secreções e o sangue e confeccionar novo bioterápico.
O bioterápico será utilizado enquanto os sinais e sintomas da doença ainda não estiverem bem definidos, porém após a definição da imagem do episódio, o gênio epidêmico deve ser utilizado.
(5) Busca do gênio epidêmico a partir da observação do maior número possível de doentes sintomáticos, estando seus sinais e sintomas comuns, expressos de forma clara e repetitiva. À medida que o surto avança, deve-se agregar novos sintomas que possam surgir em um número significativo de animais e buscar novo gênio epidêmico e medicamentoso.
O medicamento encontrado deve ser administrado inicialmente na potência 30 CH, 2 vezes ao dia tanto em animais sintomáticos (forma curativa) quanto nos assintomáticos do grupo susceptível (forma profilática). O medicamento deve ser usado enquanto durar o surto. Inicialmente uma única potência medicamentosa seria o suficiente durante todo o surto, mas na dependência da resposta ao medicamento pode-se utilizar potências crescentes, com menor freqüência. A sucessão de potências mais indicadas seria 30 CH, 200 CH e 1M considerando-se que as potências mais baixas dão imunidade mais curta e portanto devem ser dadas mais seguidamente e as mais altas, por terem efeitos mais prolongados, seriam utilizadas em doses únicas e em intervalos maiores.
(6) Eventualmente, em alguns enfermos sem resposta adequada, deve-se individualizar o quadro sintomático e tratá-los com o similimum ou com o medicamento miasmático mais adequado.
ANEXO
Quadro 1 : correlação entre doença aguda Cinomose e Vacinose Cinomótica
(PITCAIRN,R.H., 2007b)
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Forma aguda da Cinomose canina |
Forma crônica/aguda nova da Cinomose canina |
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Descarga aquosa de olhos e nariz |
Tendência a gotejamento aquoso de nariz |
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Conjuntivite |
Conjuntivite crônica, descarga aquosa. Entrópio |
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Vômito, diarréia e perda de apetite. Gastrite crônica, hepatite, pancreatite e desordens de apetite. Fezes aquosas com muco, ofensivas e freqüentemente com sangue, cansaço intenso, perda de peso e morte. Diarréia severa, fétida.
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Parvovirus Diarréia recorrente Sensibilidade alimentar com diarréia resultante
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Espasmos, crises epilépticas, paralisia. |
Epilepsia, paralisia de posteriores, espondilite. |
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Erupções peribucais |
Dermatite da prega do lábio; alergias. |
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Aumento das patas (edema), hiperqueratose de coxins plantares |
Hábito de lamber os pés, erupções entre os dedos, inflamação e inchaço dos dedos, dermatite interdigital, alergias. |
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Pneumonia |
Tosse dos Canis Bronquite crônica |
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Erupções de pele como pústulas - abdome, entre as coxas. |
Erupções crônicas de pele envolvendo abdome, entre pernas e geralmente metade inferior do corpo. Alergias |
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Emaciação |
Falha de crescimento; condição de magreza anormal. |
APÊNDICE I
REFLEXÕES
Diante da inércia do poder público em assumir seu papel de responsabilidade sobre o aumento crescente e contínuo de animais abandonados nos centros urbanos do país, algumas organizações não governamentais (ONGs), protetores animais autônomos e algumas poucas prefeituras municipais tentam heroicamente desenvolver trabalhos solidários relacionados a melhoria das condições de vida dos animais abandonados nas ruas. Diversas medidas emergenciais e a médio e longo prazo devem ser direcionadas no sentido de planejar, implantar e desenvolver políticas, programas e projetos de âmbito público na tentativa de reduzir as populações de cães e gatos de rua. Incluem-se neste universo as ações educativas permanentes, legislação e fiscalizações específicas, controle de reprodução e comércio, registro, identificação e concessão de licenças de animais e criadores. A participação ativa de diferentes órgãos do poder público e de segmentos sociais na promoção de programas de adoção monitorada, respeitando o bem estar psicológico e social, com meio ambiente saudável, habitações adequadas, alimentação balanceada, tratamento médico e sanitário, programas de esterilização em massa, assim como adequada profilaxia contra doenças infecto-contagiosas são objetivos a serem alcançados, permeados pelo equilíbrio na interação entre seres humanos, animais e meio ambiente e o respeito a todas as formas de vida.
A proteção específica do bioterápico e a utilização de medicamentos homeopáticos como resultado da pesquisa do gênio epidêmico podem ser a opção mais prática, funcional e efetiva na prevenção de epidemias e endemias nestas populações quando deixa de ser prático e torna-se inviável medicar individualmente um grande número de indivíduos sujeitos ao contágio de doenças infecciosas agudas. Além da praticidade na administração, os baixos custos de fabricação devem ser considerados na utilização profilática em massa.
Diante de assunto tão controverso como o é a homeoprofilaxia, seja no meio médico humano, seja no veterinário, alguns pontos devem ser destacados para reflexão:
- (1) Tantos exemplos de sucesso em mais de 200 anos de homeopatia e homeoprofilaxia não seriam por si só suficientes para gerar interesse em estimular produção científica na área?
- (2) Os interesses comerciais da indústria farmacêutica mundial não seriam os reais responsáveis pelo "preconceito" existente com relação às terapêuticas alternativas?
- (3) Os relatos de possíveis doenças iatrogênicas resultantes do uso indiscriminado de vacinas, por si só não seriam suficientes para que questionássemos os atuais protocolos vacinais em todo o mundo e investigássemos ferramentais mais seguras e eficazes?
A intenção deste trabalho não é a de pretensiosamente tentar esclarecer definitivamente os inúmeros pontos obscuros relacionados à prática médica profilática, mas ao contrário, incitar a discussão de polêmicas na medicina e na ética dos profissionais de saúde, do poder público e dos laboratórios farmacêuticos.
E para que possamos repensar continuamente como tratamos os nossos doentes, lembremos as sábias palavras de Voltaire: "Os médicos receitam remédios que pouco conhecem, para curar doenças que conhecem menos ainda, em seres humanos que desconhecem inteiramente".
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[1] Christian Friedrich Samuel Hahnemann (1755-1843) médico alemão criador da doutrina homeopática. Em 1810 publica sua maior obra, O Organon da Arte de Curar, onde explicita e discute toda a base da teoria homeopática, seus fundamentos científicos e filosóficos, assim como as regras para examinar os doentes, experimentar substâncias no homen são e escolher medicamentos segundo o princípio da similitude, fazendo da homeopatia a verdadeira arte de curar.
[2] Descrição de sinais, sintomas, sensações, ilusões e sentimentos, na linguagem dos experimentadores, após ingerir um medicamento homeopático.
[3] A mesma substância, dinamizada, que é capaz de produzir no homem são sinais e sintomas, é utilizada para curá-los quando apresentem os mesmos sinais e sintomas na enfermidade.


